Antiautoajuda: Neste mundo, sentir-se mal é sinônimo de excelente saúde mental
Psicologia e comportamentocrítica socialjan 23, 2015
“É no cinema e na literatura que nos enternecemos e derrubamos nossas lágrimas ao testemunhar as sutilezas que esquecemos de enxergar ou não somos capazes de enxergar nos nossos dias de autômatos. Os personagens da ficção têm mais carne que nós, precisamos deles para nos lembrar de quem somos. Os robôs já estão aí, temos agora de reinventar os humanos.” Eliane Brum em A delicadeza dos dias
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NOTA da CONTI outra: É com a frase acima que a jornalista e escritora Eliane Brum define no artigo A delicadeza dos dias a fuga que, muitos de nós, ainda encontramos no mundo das artes. Busca-se algo com o quem se identificar, onde aliviar o mal estar constante que, dia a dia, mina o encanto pela vida e pela existência.
É assustador que, ao contrário de inspirar, a arte tenha se tornado rota de fuga existencial. No texto que transcrevo abaixo, a autora segue na construção do raciocínio sobre o mal estar geral da humanidade com outra crítica relevante, a necessidade da antiautoajuda e do enfrentamento do mal estar no sentido de impacto com a realidade.
As ilustrações que selecionamos para acompanhar o texto são de John Holcroft e falam por si.
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Antiautoajuda para 2015
Por Eliane Brum
Em defesa do mal-estar para nos salvar de uma vida morta e de um planeta hostil. Chega de viver no modo avião
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Não tenho certeza se esse ano vai acabar. Tenho uma convicção crescente de que os anos não acabam mais. Não há mais aquela zona de transição e a troca de calendário, assim como de agendas, é só mais uma convenção que, se é que um dia teve sentido, reencena-se agora apenas como gesto esvaziado. Menos a celebração de uma vida que se repactua, individual e coletivamente, mais como farsa. E talvez, pelo menos no Brasil, poderíamos já afirmar que 2013 começou em junho e não em janeiro, junto com as manifestações, e continua até hoje. Mas esse é um tema para outra coluna, ainda por ser escrita. O que me interessa aqui é que nossos rituais de fim e começo giram cada vez mais em falso, e não apenas porque há muito foram apropriados pelo mercado. Há algo maior, menos fácil de perceber, mas nem por isso menos dolorosamente presente. Algo que pressentimos, mas temos dificuldade de nomear. Algo que nos assusta, ou pelo menos assusta a muitos. E, por nos assustar, em vez de nos despertar, anestesia. Talvez para uma época de anos que, de tão acelerados, não terminam mais, o mais indicado seja não resoluções de ano-novo nem manuais sobre ser feliz ou bem sucedido, mas antiautoajuda.
Quando as pessoas dizem que se sentem mal, que é cada vez mais difícil levantar da cama pela manhã, que passam o dia com raiva ou com vontade de chorar, que sofrem com ansiedade e que à noite têm dificuldade para dormir, não me parece que essas pessoas estão doentes ou expressam qualquer tipo de anomalia. Ao contrário. Neste mundo, sentir-se mal pode ser um sinal claro de excelente saúde mental. Quem está feliz e saltitante como um carneiro de desenho animado é que talvez tenha sérios problemas. É com estes que deveria soar uma sirene e por estes que os psiquiatras maníacos por medicação deveriam se mobilizar, disparando não pílulas, mas joelhaços como os do Analista de Bagé, do tipo “acorda e se liga”. É preciso se desconectar totalmente da realidade para não ser afetado por esse mundo que ajudamos a criar e que nos violenta. Não acho que os felizes e saltitantes sejam mais reais do que o Papai Noel e todas as suas renas, mas, se existissem, seriam estes os alienados mentais do nosso tempo.
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John Holcroft’s work
Olho ao redor e não todos, mas quase, usam algum tipo de medicamento psíquico. Para dormir, para acordar, para ficar menos ansioso, para chorar menos, para conseguir trabalhar, para ser “produtivo”. “Para dar conta” é uma expressão usual. Mas será que temos de dar conta do que não é possível dar conta? Será que somos obrigados a nos submeter a uma vida que vaza e a uma lógica que nos coisifica porque nos deixamos coisificar? Será que não dar conta é justamente o que precisa ser escutado, é nossa porção ainda viva gritando que algo está muito errado no nosso cotidiano de zumbi? E que é preciso romper e não se adequar a um tempo cada vez mais acelerado e a uma vida não humana, pela qual nos arrastamos com nossos olhos mortos, consumindo pílulas de regulação do humor e engolindo diagnósticos de patologias cada vez mais mirabolantes? E consumindo e engolindo produtos e imagens, produtos e imagens, produtos e imagens?
A resposta não está dada. Se estivesse, não seria uma resposta, mas um dogma. Mas, se a resposta é uma construção de cada um, talvez nesse momento seja também uma construção coletiva, na medida em que parece ser um fenômeno de massa. Ou, para os que medem tudo pela inscrição na saúde, uma das marcas da nossa época, estaríamos diante de uma pandemia de mal-estar. Quero aqui defender o mal-estar. Não como se ele fosse um vírus, um alienígena, um algo que não deveria estar ali, e portanto tornar-se-ia imperativo silenciá-lo. Defendo o mal-estar – o seu, o meu, o nosso – como aquilo que desde as cavernas nos mantém vivos e fez do homo sapiens uma espécie altamente adaptada – ainda que destrutiva e, nos últimos séculos, também autodestrutiva. É o mal-estar que nos diz que algo está errado e é preciso se mover. Não como um gesto fácil, um preceito de autoajuda, mas como uma troca de posição, o que custa, demora e exige os nossos melhores esforços. Exige que, pela manhã, a gente não apenas acorde, mas desperte.
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John Holcroft’s work
Anos atrás eu escreveria, como escrevi algumas vezes, que o mal-estar desta época, que me parece diferente do mal-estar de outras épocas históricas, se dá por várias razões relacionadas à modernidade e a suas criações concretas e simbólicas. Se dá inclusive por suas ilusões de potência e fantasias de superação de limites. Mas em especial pela nossa redução de pessoas a consumidores, pela subjugação de nossos corpos – e almas – ao mercado e pela danação de viver num tempo acelerado.
Sobre essa particularidade, a psicanalista Maria Rita Kehl escreveu um livro muito interessante, chamado O Tempo e o Cão (Boitempo), em que reflete de forma original sobre o que as depressões expressam sobre o nosso mundo também como sintoma social. Logo no início, ela conta a experiência pessoal de atropelar um cachorro na estrada – e a experiência aqui não é uma escolha aleatória de palavra. Kehl viu o cachorro, mas a velocidade em que estava a impedia de parar ou desviar completamente dele. Conseguiu apenas não matá-lo. Logo, o animal, cambaleando rumo ao acostamento, ficou para trás no espelho retrovisor. É isso o que acontece com as nossas experiências na velocidade ditada por essa época em que o tempo foi rebaixado a dinheiro – uma brutalidade que permitimos, reproduzimos e com a qual compactuamos sem perceber o quanto de morte há nessa conversão.
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John Holcroft’s work
John Holcroft’s work
Sobre a aceleração, diz a psicanalista: “Mal nos damos conta dela, a banal velocidade da vida, até que algum mau encontro venha revelar a sua face mortífera. Mortífera não apenas contra a vida do corpo, em casos extremos, mas também contra a delicadeza inegociável da vida psíquica. (…) Seu esquecimento (do cão) se somaria ao apagamento de milhares de outras percepções instantâneas às quais nos limitamos a reagir rapidamente para em seguida, com igual rapidez, esquecê-las. (…) Do mau encontro, que poderia ter acabado com a vida daquele cão, resultou uma ligeira mancha escura no meu para-choque. (…) O acidente da estrada me fez refletir a respeito da relação entre as depressões e a experiência do tempo, que na contemporaneidade praticamente se resume à experiência da velocidade”. O que acontece com as manchas escuras, com o sangue deixado para trás, dentro e fora de nós? Não são elas que nos assombram nas noites em que ofegamos antes de engolir um comprimido? Como viver humanamente num tempo não humano? E como aceitamos ser submetidos à bestialidade de uma vida não viva?
Hoje me parece que algo novo se impõe, intimamente relacionado a tudo isso, mas que empresta uma concretude esmagadora e um sentido de urgência exponencial a todas as questões da existência. E, apenas nesse sentido, algo fascinante. A mudança climática, um fato ainda muito mais explícito na mente de cientistas e ambientalistas do que da sociedade em geral é esse algo. A evidência de que aquele que possivelmente seja o maior desafio de toda a história humana ainda não tenha se tornado a preocupação maior do que se chama de “cidadão comum” é não uma mostra de sua insignificância na vida cotidiana, mas uma prova de sua enormidade na vida cotidiana. É tão grande que nos tornamos cegos e surdos.
John Holcroft’s work
John Holcroft’s work
Em uma entrevista recente, aqui publicada como “Diálogos sobre o fim do mundo”, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro evoca o pensador alemão Günther Anders (1902-1992) para explicar essa alienação. Anders afirmava que a arma nuclear era uma prova de que algo tinha acontecido com a humanidade no momento em que se mostrou incapaz de imaginar os efeitos daquilo que se tornou capaz de fazer. Reproduzo aqui esse trecho da entrevista: “É uma situação antiutópica. O que é um utopista? Um utopista é uma pessoa que consegue imaginar um mundo melhor, mas não consegue fazer, não conhece os meios nem sabe como. E nós estamos virando o contrário. Nós somos capazes tecnicamente de fazer coisas que não somos nem capazes de imaginar. A gente sabe fazer a bomba atômica, mas não sabe pensar a bomba atômica. O Günther Anders usa uma imagem interessante, a de que existe essa ideia em biologia da percepção de fenômenos subliminares, abaixo da linha de percepção. Tem aquela coisa que é tão baixinha, que você ouve mas não sabe que ouviu; você vê, mas não sabe que viu; como pequenas distinções de cores. São fenômenos literalmente subliminares, abaixo do limite da sua percepção. Nós, segundo ele, estamos criando uma outra coisa agora que não existia, o supraliminar. Ou seja, é tão grande, que você não consegue ver nem imaginar. A crise climática é uma dessas coisas. Como é que você vai imaginar um troço que depende de milhares de parâmetros, que é um transatlântico que está andando e tem uma massa inercial gigantesca? As pessoas ficam paralisadas, dá uma espécie de paralisia cognitiva”.
O fato de se alienar – ou, como fazem alguns, chamar aqueles que apontam para o óbvio de “ecochatos”, a piada ruim e agora também velha – nem impede a corrosão acelerada do planeta nem a corrosão acelerada da vida cotidiana e interna de cada um. O que quero dizer é que, como todos os nossos gritos existenciais, o fato de negá-los não impede que façam estragos dentro de nós. Acredito que o mal-estar atual – talvez um novo mal-estar da civilização – é hoje visceralmente ligado ao que acontece com o planeta. E que nenhuma investigação da alma humana desse momento histórico, em qualquer campo do conhecimento, possa prescindir de analisar o impacto da mudança climática em curso.
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John Holcroft’s work
De certo modo, na acepção popular do termo “clima”, referindo-se ao estado de espírito de um grupo ou pessoa, há também uma “mudança climática”. Mesmo que a maioria não consiga nomear o mal-estar, desconfio que a fera sem nome abra seus olhos dentro de nós nas noites escuras, como o restante dos pesadelos que só temos quando acordados. Há esse bicho que ainda nos habita que pressente, mesmo que tenha medo de sentir no nível mais consciente e siga empurrando o que o apavora para dentro, num esforço quase comovente por ignorância e anestesia. E a maior prova, de novo, é a enormidade da negação, inclusive pelo doping por drogas compradas em farmácias e “autorizadas” pelo médico, a grande autoridade desse curioso momento em que o que é doença está invertido.
São Paulo é, no Brasil, a vitrine mais impressionante dessa monumental alienação. A maior cidade do país vem se tornando há anos, décadas, um cenário de distopia em que as pessoas evoluem lentamente entre carros e poluição, encurraladas e cada vez mais violentas nos mínimos atos do dia a dia. No último ano, a seca e a crise da água acentuaram e aceleraram a corrosão da vida, mas nem por isso a mudança climática e todas as questões socioambientais relacionadas a ela tiveram qualquer impacto ou a mínima relevância na eleição estadual e principalmente na eleição presidencial. Nada. A maioria, incluindo os governantes, sequer parece perceber que a catástrofe paulista, que atinge a capital e várias cidades do interior, é ligada também à devastação da Amazônia. O tal “mundo como o conhecemos” ruindo e os zumbis evolucionando por ruas incompatíveis com a vida sem qualquer espanto. Nem por isso, ouso acreditar, deixam sequer por um momento de ser roídos por dentro pela exterioridade de sua condição. A vida ainda resiste dentro de nós, mesmo na Zumbilândia. E é o mal-estar que acusa o que resta de humano em nossos corpos.
É de um cientista, Antonio Nobre, um texto fundamental. Ler “O futuro climático da Amazônia” não é uma opção. Faça um favor a si mesmo e reserve uma hora ou duas do seu dia, o tempo de um filme, entre na internet e leia as 40 páginas escritas numa linguagem acessível, que faz pontes com vários campos do conhecimento. Há trechos de grande beleza sobre a maior floresta tropical do planeta, território concreto e simbólico sobre o qual o senso comum, no Brasil alimentado pela propaganda da ditadura civil-militar, construiu uma ideia de exploração e de nacionalismos que só vigora até hoje por total desconhecimento. É também por ignorância nossa que o atual governo, reeleito para mais um mandato, comanda na Amazônia seu projeto megalômano de grandes hidrelétricas com escassa resistência. E causa, agora, neste momento, um desastre ambiental de proporções não mensuradas em vários rios amazônicos e o etnocídio dos povos indígenas da bacia do Xingu.
John Holcroft’s work
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Antonio Nobre mostra como uma floresta com um papel – insubstituível – na regulação do clima do Brasil e do planeta teve, nos últimos 40 anos, 762.979 quilômetros quadrados desmatados: o equivalente a três estados de São Paulo ou duas Alemanhas. Ou o equivalente a mais de 12 mil campos de futebol desmatados por dia, mais de 500 por hora, quase nove por minuto. Somando-se a área de desmatamento corte raso com a área degradada, alcançamos a estimativa aterradora de que, até 2013, 47% da floresta amazônica pode ter sido impactada diretamente por atividade humana desestabilizadora do clima. “A floresta sobreviveu por mais de 50 milhões de anos a vulcanismos, glaciações, meteoros, deriva do continente”, escreve Nobre. “Mas em menos de 50 anos está ameaçada pela ação de humanos.” A Amazônia dá forma ao momento da História em que a humanidade deixa de temer a catástrofe para se tornar a catástrofe.
Como é possível que isso aconteça bem aqui, agora, e tão poucos se importem? Se não despertarmos do nosso torpor assustado, nossos filhos e netos poderão viver e morrer não com a Amazônia transformada em savana, mas sim em deserto, com gigantesco impacto sobre o clima do planeta e a vida de todas as espécies. Para se ter uma ideia da magnitude do que estamos fazendo, por ação ou por omissão, por alienação, anestesia ou automatismo, alguns dados. Uma árvore grande transpira mais de mil litros de água por dia. A cada 24 horas a floresta amazônica lança na atmosfera, pela transpiração, 20 bilhões de toneladas de água – ou 20 trilhões de litros de água. Para se ter uma ideia comparativa, o rio Amazonas lança menos que isso – cerca de 17 bilhões de toneladas de água por dia– no oceano Atlântico. Não é preciso ser um cientista para imaginar o que acontecerá com o planeta sem a floresta.
John Holcroft’s work
John Holcroft’s work
Nobre defende que já não basta zerar o desmatamento. Alcançamos um nível de destruição em que é preciso regenerar a Amazônia. A floresta não é o “pulmão do mundo”, ela é muito mais do que isso: é o seu coração. Não como uma frase ultrapassada e clichê, mas como um fato científico. É o mundo e não só o Brasil que precisa se engajar nessa luta: o cientista defende que, se não quisermos alcançar o ponto de não retorno, deveríamos empreender – já, agora – um esforço de guerra: começando por uma guerra contra a ignorância. Fazer uma campanha tão forte e eficaz como aquela contra o tabaco. Isso, claro, se quisermos continuar a viver.
Nessa época de tanta conexão, em que a maioria passa quase todo o tempo de vigília conectado na internet, há essa desconexão mortífera com a realidade do planeta – e de si. Como cidadão, a maioria no máximo recicla o seu lixo, achando que está fazendo um enorme esforço, mas não se informa nem participa dos debates e das decisões sobre as questões do clima, da Amazônia e do meio ambiente. Neste e em vários sentidos, é como existir no “modo avião” do celular. Um estar pela metade, o suficiente apenas para cumprir o mínimo e não se desligar por completo. Um contato sem contato, um toque que não toca nem se deixa tocar. Um viver sem vida.
É preciso sentir o mal-estar. Sentir mesmo – e não silenciá-lo das mais variadas maneiras, inclusive com medicação. Ou, como diz a pensadora americana Donna Haraway: “É preciso viver com terror e alegria”.
Só o mal-estar pode nos salvar.
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Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes – o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos e do romance Uma Duas.
domingo, 1 de fevereiro de 2015
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
Veja dicas para a redação do Enem e entenda as suas regras de correção (postado no G1)
http://g1.globo.com/educacao/enem/2013/noticia/2013/10/veja-dicas-para-redacao-do-enem-e-entenda-suas-regras-de-correcao.html
Neste ano a correção da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ficará mais rígida. Entre outras mudanças, o governo anunciou que nenhum tipo de deboche será permitido na prova de redação do Enem deste ano. Em 2012, candidatos escreveram uma receita de macarrão instantâneo e o hino do Palmeiras no meio do texto e, ainda assim, não zeraram. O Enem será aplicado neste sábado (26) e domingo (27) em todo o país.
A prova de redação será no domingo, junto com questões de linguagens e matemática. No sábado o Enem terá provas de ciências humanas e ciências da natureza. Muitos candidatos ficam em dúvida sobre que estratégia adotar em relação à redação. Começar a redação primeiro e depois responder às questões das provas de linguagens e matemática? Ou fazer as 90 questões para depois se concentrar na redação. No total, o estudante terá 5h30 na prova de domingo para fazer a redação, responder todas as perguntas e passar tudo do caderno de provas para a folha de respostas.
A professora Arlete Salvador, autora do livro "Como escrever para o Enem" (Editora Contexto), recomenda que o candidato comece a prova do domingo pela redação. “Ele vai estar mais descansado, pode ver o tema com mais calma e já elaborar o roteiro do que vai escrever", afirma. Ela recomenda que o aluno coloque as ideias no rascunho e faça um texto de 30 linhas. Assim que terminar, pense em um título que sintetize as ideias. Em seguida, passe a limpo com calma e boa caligrafia para a folha oficial que será entregue ao final da prova. Veja dicas de Arlete Salvador para a redação do Enem:
1) Calcule o tempo. Separe uma hora para fazer a redação.
2) Encontre o tema. Organize as ideias e pense quais argumentos você vai defender.
3) Escreva primeiro no rascunho. Faça os ajustes necessários. Releia o que escreveu para ver se está tudo compreensível e se não tem nenhum erro. Só depois transcreva o texto final para a folha oficial. As boas redações não têm nenhuma rasura.
4) Capriche na letra. O examinador precisa entender o que você escreveu.
5) Divida o texto em parágrafos. Tem que dar a margem antes de iniciar um novo parágrafo. E coloque ponto final ao terminar.
6) Faça um texto com 30 linhas. Dê um título de quatro a cinco palavras. O título não é obrigatório segundo o edital, mas ajuda a enriquecer a prova.
7) Não escreva em primeira pessoa. Faça uma dissertação usando a terceira pessoa do singular ou plural (ele, ela, eles, elas).
8) Leve a prova a sério. Não faça piadinhas, brincadeiras, nem seja preconceituoso nas ideias.
9) Seja simples e objetivo. Pode escrever com simplicidade. Não precisa se preocupar com texto muito elaborado com vocabulário muito intelectual. Enem pede texto correto e coeso.
10) Não fuja ao tema proposto. Segundo o edital, quem fugir ao tema deliberadamente vai ganhar nota zero.
Correção mais rígida
A correção da redação do Enem ficará mais rígida a partir deste ano. Inserção de trechos indevidos, como receitas de macarrão e hinos de times de futebol, que fogem ao tema, poderão resultar em nota zero para o candidato. A alteração, inclusive, está explícita no edital da prova, ao contrário das edições anteriores.
Entenda abaixo o que mudou nas regras da redação do Enem:
Discrepância de notas leva a terceiro corretor
Todas as redações do Enem serão corrigidas por pelo menos duas pessoas. Todas as vezes que as duas notas tiverem uma diferença de mais de 100 pontos, um terceiro avaliador corrigirá a prova para que se chegue à nota final. No ano passado, essa tolerância era de 200 pontos.
Se a nota em um das cinco competências (que vai de 0 a 200) tiver discrepância de 80 pontos, a redação também irá para o tercerio corretor.
Por causa da mudança, a estimativa do governo é de um aumento no número de redações que passem pela terceira correção. Em 2012, 21% das provas estiveram nessa situação. Agora, ele afirma que essa porcentagem chegue a um terço.
Para garantir uma correção mais rigorosa, houve um aumento no número de corretores. Em 2012, foram contratados 5.692 corretores, 234 supervisores de avaliação, 468 auxiliares e dez subcoordenadores pedagógicos para o processo de avaliar as redações
Texto com piada será anulado
Para coibir tentativas de deboche na prova, um item foi acrescentado no artigo do edital que fala sobre as razões para que uma redação receba nota zero do MEC. O item 14.9.5 do edital diz que a redação "que apresente parte do trecho deliberadamente desconectada com o tema proposto, que será considerada 'anulada'".
A nova regra já estava em debate pela comissão que elabora o edital do Enem, depois que candidatos que no último Enem inseriram receita do miojo e o hino do Palmeiras no texto ganharam notas 560 e 500, respectivamente. Esse tipo de teste ao Enem, agora, será punido com a nota zero.
Veja como ficam as regras do edital para a anulação da prova:
14.9 Em todos as situações expressas abaixo, será atribuída nota zero à redação:
14.9.1 que não atender a proposta solicitada ou que possua outra estrutura textual que não seja a do tipo dissertativo-argumentativo, o que configurará “Fuga ao tema/não atendimento ao tipo textual”;
14.9.2 sem texto escrito na Folha de Redação, que será considerada “Em Branco”;
14.9.3 com até 7 (sete) linhas, qualquer que seja o conteúdo, que configurará “Texto insuficiente”;
14.9.3.1 linhas com cópia dos textos motivadores apresentados no Caderno de Questões serão desconsideradas para efeito de correção e de contagem do mínimo de linhas;
14.9.4 com impropérios, desenhos e outras formas propositais de anulação, que será considerada “Anulada”.
14.9.5 que apresente parte do trecho deliberadamente desconectada com o tema proposto, que será considerada "Anulada".
Nota mil só com domínio da língua
O ministro Aloizio Mercadante afirmou durante apresentação das novas regras no dia 8 de maio, que a partir deste ano, o candidato terá que "ser muito mais rigoroso para tirar a nota máxima". Ele disse que a primeira competência (demonstrar domínio da norma padrão da língua escrita) terá o item 5, que equivale à nota mais alta da competência, alterado para aumentar a exigência.
A partir deste ano, para tirar a nota máxima nesta competência, a redação só poderá ter erros de português considerados como uma "excepcionalidade" e quando "não caracterizem reincidência". O objetivo é evitar que redações com poucos desvios gramaticais ou convenções de escrita recebam a nota máxima na prova.
Veja os tema de redação nas edições do Enem
Ano Tema da redação
1998 Viver e aprender
1999 Cidadania e participação social
2000 Direitos da criança e do adolescente: como enfrentar esse desafio nacional
2001 Desenvolvimento e preservação ambiental: como conciliar os interesses em conflito?
2002 O direito de votar: como fazer dessa conquista um meio para promover as transformações sociais que o Brasil necessita?
2003 A violência na sociedade brasileira: como mudar as regras desse jogo
2004 Como garantir a liberdade de informação e evitar abusos nos meios de comunicação
2005 O trabalho infantil na sociedade brasileira
2006 O poder de transformação da leitura
2007 O desafio de se conviver com as diferenças
2008 Como preservar a floresta Amazônica: suspender imediatamente o desmatamento; dar incentivo financeiros a proprietários que deixarem de desmatar; ou aumentar a fiscalização e aplicar multas a quem desmatar
2009 O indivíduo frente à ética nacional
2010 O trabalho na construção da dignidade humana
2011 Viver em rede no século 21: os limites entre o público e o privado
2012 Movimento imigratório para o Brasil no século 21
Nota mil só com domínio da língua
O ministro Aloizio Mercadante afirmou durante apresentação das novas regras no dia 8 de maio, que a partir deste ano, o candidato terá que "ser muito mais rigoroso para tirar a nota máxima". Ele disse que a primeira competência (demonstrar domínio da norma padrão da língua escrita) terá o item 5, que equivale à nota mais alta da competência, alterado para aumentar a exigência.
A partir deste ano, para tirar a nota máxima nesta competência, a redação só poderá ter erros de português considerados como uma "excepcionalidade" e quando "não caracterizem reincidência". O objetivo é evitar que redações com poucos desvios gramaticais ou convenções de escrita recebam a nota máxima na prova.
COMPETÊNCIAS AVALIADAS NA PROVA DE REDAÇÃO DO ENEM
1 Demonstrar domínio da norma padrão da língua escrita.*
0 a 200 pontos
2**Compreender a proposta de redação e aplicar conceitos das várias áreas de conhecimento para desenvolver o tema dentro dos limites estruturais do texto dissertativo-argumentativo.
0 a 200 pontos
3 Selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista.
0 a 200 pontos
4 Demonstrar conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários à construção da argumentação.
0 a 200 pontos
5 Elaborar proposta de intervenção para o problema abordado, respeitando os direitos humanos.
0 a 200 pontos
(*) Dentro desta competência, o nível 5 foi alterado para reduzir a tolerância a desvios gramaticais
(**) OBS: Caso o candidato tenha nota zero na Competência 2, ele terá a prova anulada
Fonte: MEC/Inep
A nota 1.000, então, só será atingida se o candidato garantir a pontuação máxima na competência

Neste ano a correção da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ficará mais rígida. Entre outras mudanças, o governo anunciou que nenhum tipo de deboche será permitido na prova de redação do Enem deste ano. Em 2012, candidatos escreveram uma receita de macarrão instantâneo e o hino do Palmeiras no meio do texto e, ainda assim, não zeraram. O Enem será aplicado neste sábado (26) e domingo (27) em todo o país.
A prova de redação será no domingo, junto com questões de linguagens e matemática. No sábado o Enem terá provas de ciências humanas e ciências da natureza. Muitos candidatos ficam em dúvida sobre que estratégia adotar em relação à redação. Começar a redação primeiro e depois responder às questões das provas de linguagens e matemática? Ou fazer as 90 questões para depois se concentrar na redação. No total, o estudante terá 5h30 na prova de domingo para fazer a redação, responder todas as perguntas e passar tudo do caderno de provas para a folha de respostas.
A professora Arlete Salvador, autora do livro "Como escrever para o Enem" (Editora Contexto), recomenda que o candidato comece a prova do domingo pela redação. “Ele vai estar mais descansado, pode ver o tema com mais calma e já elaborar o roteiro do que vai escrever", afirma. Ela recomenda que o aluno coloque as ideias no rascunho e faça um texto de 30 linhas. Assim que terminar, pense em um título que sintetize as ideias. Em seguida, passe a limpo com calma e boa caligrafia para a folha oficial que será entregue ao final da prova. Veja dicas de Arlete Salvador para a redação do Enem:
1) Calcule o tempo. Separe uma hora para fazer a redação.
2) Encontre o tema. Organize as ideias e pense quais argumentos você vai defender.
3) Escreva primeiro no rascunho. Faça os ajustes necessários. Releia o que escreveu para ver se está tudo compreensível e se não tem nenhum erro. Só depois transcreva o texto final para a folha oficial. As boas redações não têm nenhuma rasura.
4) Capriche na letra. O examinador precisa entender o que você escreveu.
5) Divida o texto em parágrafos. Tem que dar a margem antes de iniciar um novo parágrafo. E coloque ponto final ao terminar.
6) Faça um texto com 30 linhas. Dê um título de quatro a cinco palavras. O título não é obrigatório segundo o edital, mas ajuda a enriquecer a prova.
7) Não escreva em primeira pessoa. Faça uma dissertação usando a terceira pessoa do singular ou plural (ele, ela, eles, elas).
8) Leve a prova a sério. Não faça piadinhas, brincadeiras, nem seja preconceituoso nas ideias.
9) Seja simples e objetivo. Pode escrever com simplicidade. Não precisa se preocupar com texto muito elaborado com vocabulário muito intelectual. Enem pede texto correto e coeso.
10) Não fuja ao tema proposto. Segundo o edital, quem fugir ao tema deliberadamente vai ganhar nota zero.
Correção mais rígida
A correção da redação do Enem ficará mais rígida a partir deste ano. Inserção de trechos indevidos, como receitas de macarrão e hinos de times de futebol, que fogem ao tema, poderão resultar em nota zero para o candidato. A alteração, inclusive, está explícita no edital da prova, ao contrário das edições anteriores.
Entenda abaixo o que mudou nas regras da redação do Enem:
Discrepância de notas leva a terceiro corretor
Todas as redações do Enem serão corrigidas por pelo menos duas pessoas. Todas as vezes que as duas notas tiverem uma diferença de mais de 100 pontos, um terceiro avaliador corrigirá a prova para que se chegue à nota final. No ano passado, essa tolerância era de 200 pontos.
Se a nota em um das cinco competências (que vai de 0 a 200) tiver discrepância de 80 pontos, a redação também irá para o tercerio corretor.
Por causa da mudança, a estimativa do governo é de um aumento no número de redações que passem pela terceira correção. Em 2012, 21% das provas estiveram nessa situação. Agora, ele afirma que essa porcentagem chegue a um terço.
Para garantir uma correção mais rigorosa, houve um aumento no número de corretores. Em 2012, foram contratados 5.692 corretores, 234 supervisores de avaliação, 468 auxiliares e dez subcoordenadores pedagógicos para o processo de avaliar as redações
Texto com piada será anulado
Para coibir tentativas de deboche na prova, um item foi acrescentado no artigo do edital que fala sobre as razões para que uma redação receba nota zero do MEC. O item 14.9.5 do edital diz que a redação "que apresente parte do trecho deliberadamente desconectada com o tema proposto, que será considerada 'anulada'".
A nova regra já estava em debate pela comissão que elabora o edital do Enem, depois que candidatos que no último Enem inseriram receita do miojo e o hino do Palmeiras no texto ganharam notas 560 e 500, respectivamente. Esse tipo de teste ao Enem, agora, será punido com a nota zero.
Veja como ficam as regras do edital para a anulação da prova:
14.9 Em todos as situações expressas abaixo, será atribuída nota zero à redação:
14.9.1 que não atender a proposta solicitada ou que possua outra estrutura textual que não seja a do tipo dissertativo-argumentativo, o que configurará “Fuga ao tema/não atendimento ao tipo textual”;
14.9.2 sem texto escrito na Folha de Redação, que será considerada “Em Branco”;
14.9.3 com até 7 (sete) linhas, qualquer que seja o conteúdo, que configurará “Texto insuficiente”;
14.9.3.1 linhas com cópia dos textos motivadores apresentados no Caderno de Questões serão desconsideradas para efeito de correção e de contagem do mínimo de linhas;
14.9.4 com impropérios, desenhos e outras formas propositais de anulação, que será considerada “Anulada”.
14.9.5 que apresente parte do trecho deliberadamente desconectada com o tema proposto, que será considerada "Anulada".
Nota mil só com domínio da língua
O ministro Aloizio Mercadante afirmou durante apresentação das novas regras no dia 8 de maio, que a partir deste ano, o candidato terá que "ser muito mais rigoroso para tirar a nota máxima". Ele disse que a primeira competência (demonstrar domínio da norma padrão da língua escrita) terá o item 5, que equivale à nota mais alta da competência, alterado para aumentar a exigência.
A partir deste ano, para tirar a nota máxima nesta competência, a redação só poderá ter erros de português considerados como uma "excepcionalidade" e quando "não caracterizem reincidência". O objetivo é evitar que redações com poucos desvios gramaticais ou convenções de escrita recebam a nota máxima na prova.
Veja os tema de redação nas edições do Enem
Ano Tema da redação
1998 Viver e aprender
1999 Cidadania e participação social
2000 Direitos da criança e do adolescente: como enfrentar esse desafio nacional
2001 Desenvolvimento e preservação ambiental: como conciliar os interesses em conflito?
2002 O direito de votar: como fazer dessa conquista um meio para promover as transformações sociais que o Brasil necessita?
2003 A violência na sociedade brasileira: como mudar as regras desse jogo
2004 Como garantir a liberdade de informação e evitar abusos nos meios de comunicação
2005 O trabalho infantil na sociedade brasileira
2006 O poder de transformação da leitura
2007 O desafio de se conviver com as diferenças
2008 Como preservar a floresta Amazônica: suspender imediatamente o desmatamento; dar incentivo financeiros a proprietários que deixarem de desmatar; ou aumentar a fiscalização e aplicar multas a quem desmatar
2009 O indivíduo frente à ética nacional
2010 O trabalho na construção da dignidade humana
2011 Viver em rede no século 21: os limites entre o público e o privado
2012 Movimento imigratório para o Brasil no século 21
Nota mil só com domínio da língua
O ministro Aloizio Mercadante afirmou durante apresentação das novas regras no dia 8 de maio, que a partir deste ano, o candidato terá que "ser muito mais rigoroso para tirar a nota máxima". Ele disse que a primeira competência (demonstrar domínio da norma padrão da língua escrita) terá o item 5, que equivale à nota mais alta da competência, alterado para aumentar a exigência.
A partir deste ano, para tirar a nota máxima nesta competência, a redação só poderá ter erros de português considerados como uma "excepcionalidade" e quando "não caracterizem reincidência". O objetivo é evitar que redações com poucos desvios gramaticais ou convenções de escrita recebam a nota máxima na prova.
COMPETÊNCIAS AVALIADAS NA PROVA DE REDAÇÃO DO ENEM
1 Demonstrar domínio da norma padrão da língua escrita.*
0 a 200 pontos
2**Compreender a proposta de redação e aplicar conceitos das várias áreas de conhecimento para desenvolver o tema dentro dos limites estruturais do texto dissertativo-argumentativo.
0 a 200 pontos
3 Selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista.
0 a 200 pontos
4 Demonstrar conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários à construção da argumentação.
0 a 200 pontos
5 Elaborar proposta de intervenção para o problema abordado, respeitando os direitos humanos.
0 a 200 pontos
(*) Dentro desta competência, o nível 5 foi alterado para reduzir a tolerância a desvios gramaticais
(**) OBS: Caso o candidato tenha nota zero na Competência 2, ele terá a prova anulada
Fonte: MEC/Inep
A nota 1.000, então, só será atingida se o candidato garantir a pontuação máxima na competência

terça-feira, 22 de outubro de 2013
Zumbi dos Palmares e o Dia da Consciência Negra
Zumbi foi o grande líder do quilombo dos Palmares, respeitado herói da resistência antiescravagista. Pesquisas e estudos indicam que nasceu em 1655, sendo descendente de guerreiros angolanos. Em um dos povoados do quilombo, foi capturado quando garoto por soldados e entregue ao padre Antonio Melo, de Porto Calvo. Criado e educado por este padre, o futuro líder do Quilombo dos Palmares já tinha apreciável noção de Português e Latim aos 12 anos de idade, sendo batizado com o nome de Francisco. Padre Antônio Melo escreveu várias cartas a um amigo, exaltando a inteligência de Zumbi (Francisco). Em 1670, com quinze anos, Zumbi fugiu e voltou para o Quilombo. Tornou-se um dos líderes mais famosos de Palmares. "Zumbi" significa: a força do espírito presente. Baluarte da luta negra contra a escravidão, Zumbi foi o último chefe do Quilombo dos Palmares.
O nome Palmares foi dado pelos portugueses, em razão do grande número de palmeiras encontradas na região da Serra da Barriga, ao sul da capitania de Pernambuco, hoje, estado de Alagoas. Os que lá viviam chamavam o quilombo de Angola Janga (Angola Pequena). Palmares constituiu-se como abrigo não só de negros, mas também de brancos pobres, índios e mestiços extorquidos pelo colonizador. Os quilombos, que na língua banto significam "povoação", funcionavam como núcleos habitacionais e comerciais, além de local de resistência à escravidão, já que abrigavam escravos fugidos de fazendas. No Brasil, o mais famoso deles foi Palmares.
O Quilombo dos Palmares existiu por um período de quase cem anos, entre 1600 e 1695. No Quilombo de Palmares (o maior em extensão), viviam cerca de vinte mil habitantes. Nos engenhos e senzalas, Palmares era parecido com a Terra Prometida, e Zumbi, era tido como eterno e imortal, e era reconhecido como um protetor leal e corajoso. Zumbi era um extraordinário e talentoso dirigente militar. Explorava com inteligência as peculiaridades da região. No Quilombo de Palmares plantavam-se frutas, milho, mandioca, feijão, cana, legumes, batatas. Em meados do século XVII, calculavam-se cerca de onze povoados. A capital era Macaco, na Serra da Barriga.
A Domingos Jorge Velho, um bandeirante paulista, vulto de triste lembrança da história do Brasil, foi atribuído a tarefa de destruir Palmares. Para o domínio colonial, aniquilar Palmares era mais que um imperativo atribuído, era uma questão de honra. Em 1694, com uma legião de 9.000 homens, armados com canhões, Domingos Jorge Velho começou a empreitada que levaria à derrota de Macaco, principal povoado de Palmares. Segundo Paiva de Oliveira, Zumbi foi localizado no dia 20 de novembro de 1695, vítima da traição de Antônio Soares. “O corpo perfurado por balas e punhaladas foi levado a Porto Calvo. A sua cabeça foi decepada e remetida para Recife onde, foi coberta por sal fino e espetada em um poste até ser consumida pelo tempo”.
O Quilombo dos Palmares foi defendido no século XVII durante anos por Zumbi contra as expedições militares que pretendiam trazer os negros fugidos novamente para a escravidão. O Dia da Consciência Negra é celebrado em 20 de novembro no Brasil e é dedicado à reflexão sobre a inserção do negro na sociedade brasileira. A data foi escolhida por coincidir com o dia da morte de Zumbi dos Palmares, em 1695.
A lei 10.639, de 9 de janeiro de 2003, incluiu o dia 20 de novembro no calendário escolar, data em que comemoramos o Dia Nacional da Consciência Negra. A mesma lei também tornou obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira. Nas escolas as aulas sobre os temas: História da África e dos africanos, luta dos negros no Brasil, cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, propiciarão o resgate das contribuições dos povos negros nas áreas social, econômica e política ao longo da história do país.
Fonte: Brasil Escola
quinta-feira, 30 de maio de 2013
Ahhh, a imprensa...
Chapeuzinho Vermelho e as possíveis versões que a mídia exploraria:
▬ JORNAL NACIONAL:
(William Bonner): “Boa noite. Uma menina chegou a ser devorada por um lobo na noite de ontem…”.
(Fátima Bernardes): “… mas a atuação de um caçador evitou uma tragédia”.
▬ PROGRAMA DA HEBE:
“… que gracinha, gente. Vocês não vão acreditar, mas essa menina linda aqui foi retirada viva da barriga de um lobo, não é mesmo?”
▬ CIDADE ALERTA:
(Datena): “…
onde é que a gente vai parar, cadê as autoridades? Cadê as autoridades? A menina ia para a casa da avózinha a pé! Não tem transporte público! Não tem transporte público! E foi devorada viva… Um lobo, um lobo safado. Põe na tela!! Porque eu falo mesmo, não tenho medo de lobo, não tenho medo de lobo, não.”
▬ REVISTA VEJA:
❝Lula sabia das intenções do lobo.❞
▬ REVISTA CLÁUDIA:
❝Como chegar à casa da vovozinha sem se deixar enganar pelos lobos no caminho.❞
▬ REVISTA NOVA:
❝Dez maneiras de levar um lobo à loucura na cama.❞
▬ FOLHA DE S. PAULO:
Legenda da foto:
❝Chapeuzinho, à direita, aperta a mão de seu salvador❞.
Na matéria, box com um zoólogo explicando os hábitos alimentares dos lobos e um imenso infográfico mostrando como Chapeuzinho foi devorada e depois salva pelo lenhador.
▬ O ESTADO DE S. PAULO:
Lobo que devorou Chapeuzinho seria filiado ao PT.
▬ O GLOBO:
Petrobras apoia ONG do lenhador ligado ao PT que matou um lobo pra salvar menor de idade carente.
▬ ZERO HORA:
Avó de Chapeuzinho nasceu no RS.
▬ O POVO:
Sangue e tragédia na casa da vovó.
▬ EXTRA:
Promoção do mês: junte 20 selos, mais R$19,90 e troque por uma capa vermelha igual à da Chapeuzinho!
▬ AQUI:
Sangue e tragédia na casa da vovó
▬ REVISTA CARAS:
(Ensaio fotográfico com Chapeuzinho na semana seguinte). Na banheira de hidromassagem, Chapeuzinho fala a CARAS: “Até ser devorada, eu não dava valor para muitas coisas da vida. Hoje sou outra pessoa”
▬ PLAYBOY: (Ensaio fotográfico no mês seguinte)
Veja o que só o lobo viu.
▬ REVISTA ISTO É:
Gravações revelam que lobo foi assessor de político influente.
▬ G MAGAZINE: (Ensaio fotográfico com lenhador)
Lenhador mostra o machado.
▬ SUPER INTERESSANTE:
Lobo mau! mito ou verdade?
▬ DISCOVERY CHANNEL – CAÇA MITOS:
Vamos determinar se é possível uma pessoa ser engolida viva e sobreviver.
▬ CAPRICHO
Teste: Seu par ideal é lobo ou lenhador?
▬TV FAMA:
“Há rumores de que Chapeuzinho vermelho teria sido comida enquanto dormia”

▬ JORNAL NACIONAL:
(William Bonner): “Boa noite. Uma menina chegou a ser devorada por um lobo na noite de ontem…”.
(Fátima Bernardes): “… mas a atuação de um caçador evitou uma tragédia”.
▬ PROGRAMA DA HEBE:
“… que gracinha, gente. Vocês não vão acreditar, mas essa menina linda aqui foi retirada viva da barriga de um lobo, não é mesmo?”
▬ CIDADE ALERTA:
(Datena): “…
onde é que a gente vai parar, cadê as autoridades? Cadê as autoridades? A menina ia para a casa da avózinha a pé! Não tem transporte público! Não tem transporte público! E foi devorada viva… Um lobo, um lobo safado. Põe na tela!! Porque eu falo mesmo, não tenho medo de lobo, não tenho medo de lobo, não.”
▬ REVISTA VEJA:
❝Lula sabia das intenções do lobo.❞
▬ REVISTA CLÁUDIA:
❝Como chegar à casa da vovozinha sem se deixar enganar pelos lobos no caminho.❞
▬ REVISTA NOVA:
❝Dez maneiras de levar um lobo à loucura na cama.❞
▬ FOLHA DE S. PAULO:
Legenda da foto:
❝Chapeuzinho, à direita, aperta a mão de seu salvador❞.
Na matéria, box com um zoólogo explicando os hábitos alimentares dos lobos e um imenso infográfico mostrando como Chapeuzinho foi devorada e depois salva pelo lenhador.
▬ O ESTADO DE S. PAULO:
Lobo que devorou Chapeuzinho seria filiado ao PT.
▬ O GLOBO:
Petrobras apoia ONG do lenhador ligado ao PT que matou um lobo pra salvar menor de idade carente.
▬ ZERO HORA:
Avó de Chapeuzinho nasceu no RS.
▬ O POVO:
Sangue e tragédia na casa da vovó.
▬ EXTRA:
Promoção do mês: junte 20 selos, mais R$19,90 e troque por uma capa vermelha igual à da Chapeuzinho!
▬ AQUI:
Sangue e tragédia na casa da vovó
▬ REVISTA CARAS:
(Ensaio fotográfico com Chapeuzinho na semana seguinte). Na banheira de hidromassagem, Chapeuzinho fala a CARAS: “Até ser devorada, eu não dava valor para muitas coisas da vida. Hoje sou outra pessoa”
▬ PLAYBOY: (Ensaio fotográfico no mês seguinte)
Veja o que só o lobo viu.
▬ REVISTA ISTO É:
Gravações revelam que lobo foi assessor de político influente.
▬ G MAGAZINE: (Ensaio fotográfico com lenhador)
Lenhador mostra o machado.
▬ SUPER INTERESSANTE:
Lobo mau! mito ou verdade?
▬ DISCOVERY CHANNEL – CAÇA MITOS:
Vamos determinar se é possível uma pessoa ser engolida viva e sobreviver.
▬ CAPRICHO
Teste: Seu par ideal é lobo ou lenhador?
▬TV FAMA:
“Há rumores de que Chapeuzinho vermelho teria sido comida enquanto dormia”
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
Gêneros do discurso
De acordo com Bakhtin (1979), a grande quantidade de gêneros do discurso, que parte dos mais simples, como bilhetes e cartas, aos mais rebuscados, como teses científicas e artigos, faz com que seja praticamente impossível que todos sejam catalogados. Portanto, Bakhtin considera importante destacar a existência de gêneros primários, mais simples, e gêneros secundários, os mais complexos.
Segundo Schneuwly (2004), estudioso da Linguística, o gênero é um instrumento que media a relação entre sujeito e linguagem, ou seja, em suas ações cotidianas, as pessoas utilizam a língua constantemente. E esta maneira de como a língua é utilizada, reflete as condições específicas e as finalidades deste uso, bem como relaciona grupos aos diferentes usos de gêneros.
Outro estudioso, Adam, partindo das teorias de Bakhtin, vale-se da idéia de que os gêneros primários sejam vistos como tipos nucleares e responsáveis pela estruturação dos gêneros secundários. Mas, para Schneuwly, a diferença entre gênero primário e secundário está no tipo de relação com a ação linguística ou não.
É na ação da linguagem que o gênero primário se estabelece; e é por meio de outros mecanismos que o gênero secundário se estabelece. Finalizo esta dissertação com uma colocação de Bakhtin, que resume a importância da classificação destes gêneros: “A diferença entre gêneros primários e secundários (ideológicos) é extremamente grande e essencial, e é por isso mesmo que a natureza do enunciado deve ser descoberta e definida por meio da análise de ambas as modalidades.” (Bakhtin, 2006, p. 264)
ANÁLISE TEXTUAL DA MÚSICA ALEGRIA, ALEGRIA , DE CAETANO VELOSO
Caminhando contra o vento
Sem lenço e sem documento
No sol de quase dezembro,
Eu vou.
O sol se reparte em crimes
Espaçonaves, guerrilhas
Em Cardinales bonitas,
Eu vou.
Em caras de presidente,
Em grandes beijos de amor,
Em dentes, pernas, bandeiras,
Bomba e Brigitte Bardot.
O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça.
Quem lê tanta notícia?
Eu vou
Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos.
Eu vou
Por que não? E por que não?
Ela pensa em casamento
E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço e sem documento
Eu vou.
Eu tomo uma coca-cola
Ela pensa em casamento
Uma canção me consola
Eu vou.
Por entre fotos e nomes
Sem livros e sem fuzil
Sem fome, sem telefone,
No coração do Brasil.
Ela nem sabe até pensei
Em cantar na televisão
O sol é tão bonito
Eu vou
Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo amor.
Eu vou
Por que não? E por que não?
ANÁLISE:
O SUCESSO DA DÉCADA DE 1960
A música Alegria, alegria, de Caetano Veloso é uma dessas canções que se cristalizam no imaginário público como se fosse sem autor definido: de domínio público e, por isso mesmo, eleva o seu compositor à categoria dos grandes autores da música brasileira e, a própria música, à categoria dos clássicos.
Esta letra em questão funcionou como um dos pontos de partida e até síntese do movimento tropicalista ocorrido principalmente na nossa música durante as décadas de 60 e 70, do século passado. O Tropicalismo, movimento sócio-cultural iniciado a partir de 1967, surgiu principalmente na música, mas acabou influenciando toda a cultura nacional, pois retomava basicamente elementos da Antropofagia, do Modernismo Brasileiro, e outros elementos da contra-cultura, da ironia, rebeldia, anarquismo e humor ou terror anárquico.
A paródia, a crítica à esquerda intelectualizada, a não-aceitação de qualquer forma de censura, a sedução dos meios de comunicação de massa, o retrato da realidade urbana e industrial, a exploração do ser humano, tudo isso, todos esses elementos montado com uma colagem de fragmentos do dia-a-dia nas grandes cidades do país, eram, de fato, os princípios norteadores da arte tropicalista.
CONTEXTO HISTÓRICO
O panorama sócio-histórico da época desta canção era de total arrogância direitista. Estávamos em plena Ditadura Militar, especificamente nos anos de chumbo , como era chamado o governo do presidente Emílio Garrastazu Médici, conhecido como o mais duro e repressivo do período. Nestes anos, a repressão e a luta armada crescem e uma severa política de censura é colocada em execução. Jornais, revistas, livros, peças de teatro, filmes, músicas e outras formas de expressão artística são proibidas. Alguns partidos políticos passaram para a ilegalidade e a UNE (União Nacional dos Estudantes) teve seu prédio incendiado. Muitos professores, intelectuais, artistas, políticos, jornalistas e escritores são investigados, presos, torturados, exilados ou assassinados.
O Regime Militar fora imposto com um grande golpe desde 1964 e, naquele final de década, já havia as revoltas contra esta ditadura. Os estudantes iam às ruas protestar contra um governo ditatorial, que destruía as universidades, deixando-as reféns do sistema de negação do conhecimento, e a população já participava de lutas e passeatas contra o regime militar, mesmo estas sendo proibidas pelos militares.
A cultura importada era alienante, por isso, Caetano usa palavras como Brigitte Bardot, Cardinales (em referencia á atriz ítalo-americana Claudia Cardinale) e coca-cola (maior símbolo do império norte-americano, que financiava os exércitos em toda a América Latina).
Mas, os anos 60 foram a grande década revolucionária: os anos da minissaia, dos hippies, dos homens de cabelos compridos, da pílula anticoncepcional e, consequentemente da revolução feminina e da liberação sexual. Assim como surgiram ídolos impostos e fabricados pela mídia principalmente nos EUA, também surgiram símbolos de uma época que marcaram tanto pela alienação, quanto pela imposição de um comportamento novo ou pela exposição da exploração sofrida pelo ser humano. Neste patamar, aparecem ídolos da cultura pop e líderes sociais e políticos, como os Beatles, Rolling Stones, Jonh Kennedy, Martin Luther King, Fidel Castro e Che Guevara. Também fazem parte deste contexto histórico, a Guerra do Vietnã, a viagem à Lua, feminismo, lutas pelo aborto e pelo divórcio e a prática do amor livre, tendo como expoente principal o festival de Woodstok, que marcou o planeta com o poder de transformação da sociedade pela juventude. No Brasil, era a época dos grandes festivais de música, do ufanismo dos militares e das obras faraônicas erguidas a partir de grandes empréstimos. Os ídolos da música cantavam versões de sucessos norte-americanos ou europeus. Surgia a Jovem Guarda e logo depois a Bossa Nova. A cultura de massa tupiniquim começava a virar produto de exportação.
A MÚSICA E SUA INTENÇÃO
Escrita, musicada e interpretada pelo cantor e compositor Caetano Veloso, em novembro de 1967, Alegria, alegria ajudou a criar o estilo hoje intitulado de MPB e deslocou a expressão artística musical brasileira para o cenário da crítica social, em um ativismo político sem precedentes na história de outro tipo de arte no mundo. Graças a isso, Caetano Veloso teve grande parte de sua obra censurada pelo regime militar. Chegou a ser preso, junto com seu parceiro musical e amigo, Gilberto Passos Moreira, o Gilberto Gil, também cantor e compositor baiano e atual ministro da cultura do Governo Lula. Os dois artistas ficaram exilados em Londres por quase dois anos. Caetano era classificado para o governo no Brasil como persona nom gratta , uma expressão latina que corresponderia a mal-agradecido e, por isso, mal-vindo de volta à pátria. Até 1972, quando ambos voltam do exílio.
Alegria, alegria chegou a ser tema de novela da Rede Globo (Sem lenço e sem documento, na década de 80), quando o Regime Militar já estava perdendo o seu máximo poder. Na canção, é relatada a opressão sofrida pelo cidadão comum, nas ruas, nos meios de comunicação, em sua cultura nativa, no seu próprio país. A letra denuncia o abuso de poder de forma metafórica caminhando contra o vento/sem lenço e sem documento ; a violência praticada pelo regime sem livros e sem fuzil,/ sem fome, sem telefone, no coração do Brasil ; e a precariedade na educação brasileira proporcionada pela ditadura que queria pessoas alienadas: O sol nas bancas de revista /me enche de alegria e preguiça/quem lê tanta notícia? .
Podemos pegar como exemplo também de formas alienantes, elementos externos à cultura nacional, como alguns símbolos impostos pelo cinema norte-americano que exportava/exporta seus ídolos como: Cardinale, Brigitte Bardot e a coca-cola, principal imposição comercial da mídia na época.
Para dar exemplos dos desníveis sociais existentes no Brasil e as diferenças regionais, o autor se utiliza de um expediente inovador. Através de comparações aparentemente desconexas e fazendo uso de metáforas, faz a denúncia dos contrastes regionais, sociais ou econômicos, como nos versos: Eu tomo uma coca-cola,/Ela pensa em casamento , Em caras de presidente/em grandes beijos de amor/em dentes, pernas, bandeiras, bomba e Brigitte Bardot.
INTERTEXTUALIDADE
Ao começar a audição da música ou simplesmente da leitura da letra, é impossível não lembrar dos versos de outra canção dessa época de censura. Trata-se de Para não dizer que não falei das flores , do cantor paraibano Geraldo Vandré, também perseguido pelo Governo Militar, que convocava o povo para ir às ruas e lutar contra a ditadura vigente. As duas músicas se iniciam com a palavra Caminhando e isso já é um grande motivo para suscitar na população à lembrança da outra. Só depois de Geraldo Vandré ter vencido um grande festival de música com esta canção e, também pelo fato dela ter sido proibida e os discos terem sido destruídos pelo governo, é que Caetano tem sua música Alegria, alegria também proibida. Era comum a destruição ou apreensão de discos ou fitas por parte do governo militar, alguns exemplos são da música Ovelha Negra, de Rita Lee e, mais recentemente, o disco de lançamento da banda de rock carioca Blitz foi censurado em duas faixas, que foram expressamente riscadas dos discos de vinil, em 1981.
Outro compositor que sofreu muitas perseguições da ditadura foi Chico Buarque, que teve inúmeras músicas censuradas ao longo da carreira. No entanto, o cantor e compositor carioca, amigo e contemporâneo de Caetano Veloso, aprendeu a driblar a censura por meio do uso de palavras metafóricas, como na música Apesar de Você , gravada primeiramente por Clara Nunes, que criticava o governo ditatorial como se fosse uma relação afetiva entre um homem e uma mulher.
Alegria, alegria já começa poética desde o título. O que é também característica da obra de Caetano, fazer um certo ritmo nos títulos de suas obras, seja repetindo palavras ou juntando palavras com sons parecidos, produzindo aí uma aliteração. Como nos exemplos: London, London , Podres Poderes , Minha Voz, Minha Vida , Araçá Azul ou Pássaro Proibido .
CAETANO VELOSO
O mais ilustre filho de Santo Amaro, no Recôncavo Baiano, filho da centenária Dona Canô, Caetano Emanuel Viana Teles Velloso é um caso à parte na complexa teia de sons e poesias que permeiam a música popular brasileira. Ele tem acesso livre a todas as tribos da música atual, pois viaja por todos os estilos e ritmos, passando facilmente do inovador pop ao incontestável brega, com um forte apelo popular. Ao tempo que dá sempre uma nova leitura às músicas que interpreta, compõe melodias nos mais diversos ritmos, inclusive rock leve ou pesado, samba de raiz, romântico comercial, bossa-nova, baião, axé e outros ritmos regionais. É músico, arranjador, produtor, escritor, cineasta, além de cantor e compositor. Por isso, é considerado um dos grandes intelectuais da contemporaneidade.
Compositor virtuose de pérolas da música romântica como Você é linda, Quero ficar com você, Nosso Estranho Amor, O Leãozinho e Menino do Rio, também é autor de clássicos da MPB engajada, panfletária ou de desbunde, como: Odara, Sampa, Podres Poderes, Tropicália, Fora da Ordem, Haiti e Língua. Foi interpretado por todas as grandes intérpretes da música brasileira da atualidade, começando pela sua irmã Maria Bethânia, a amiga-irmã Gal Costa, a também conterrânea Simone, Zizi Possi, Elba Ramalho, Elza Soares, Leila Pinheiro, Ângela Ro Ro, Marisa Monte, Adriana Calcanhotto, Daniela Mercury, Fafá de Belém, Cássia Eller, Alcione, Rita Lee, Baby do Brasil, Marina Lima e Beth Carvalho, entre outras. Também teve músicas gravadas por cantores como Milton Nascimento, Chico Buarque, Roberto Carlos, Tom Jobim, Gilberto Gil, João Gilberto, Paulo Ricardo, Emílio Santiago, Jorge Bem Jor e muitos outros grandes artistas da MPB.
Quase sempre compõe sozinho letra e melodia, mas também fez várias músicas em parceria, principalmente com Gilberto Gil, Chico Buarque, Jorge Mautner, Jorge Bem Jor e Lulu Santos. Atualmente, encontra-se relativamente afastado de estúdios e televisão. No entanto, apresenta shows regularmente por todo o país e no exterior, principalmente nos Estados Unidos e Europa. Tem cerca de duas mil músicas compostas e pelo menos trinta discos lançados, em uma carreira de mais de 40 anos.
Caetano também se aventurou na literatura, lançando dois livros autobiográficos em que relata muito da história sócio-cultural do Brasil e, no cinema, produziu um filme que não teve muita aceitação do público. Fez muitas trilhas sonoras tanto para filmes, quanto para produções de TV, novelas e minisséries.
Se Alegria, alegria não é sua obra mais famosa ou mais lembrada pelos seus fãs, é, pelo menos a mais emblemática de uma época que jamais será esquecida da História do Brasil. E Caetano Veloso foi o grande divulgador deste período de grande revolução popular e de tanta efervescência cultural.
ANÁLISE ESTILÍSTICA:
As figuras de som predominam na letra da música de Caetano Veloso, pois o ritmo é constante, quebrado por palavras e/ou expressões como eu vou , no final de cada estrofe. A aliteração está presente tanto na repetição de sons consonantais (consonância) quanto de sons vocálicos (assonâncias), como nos exemplos: Entre fotos e nomes, sem livros e sem fuzil, sem fone, sem telefone, no coração do Brasil. : repetição do som do fonema /f/. Nos versos Caminhando contra o vento, sem lenço sem documento, no sol de quase dezembro , percebe-se a presença do fonema /k/. Também nos versos entre fotos e nomes, sem livros e sem fuzil, sem fone, sem telefone, no coração do Brasil , percebe-se a presença dos sons vocálicos de /em/. O que se repete também nos versos sem lenço sem documento, no sol de quase dezembro .
A presença de outras figuras de linguagem também é predominante no poema, principalmente a metáfora, como nos exemplos: Em Cardinales bonitas ou Caminhando contra o vento , que tem o valor semântico de nadando contra a corrente , uma expressão popular que significa estar contra , no caso, lutar contra a Ditadura Militar. No contexto do momento histórico vivido pelo autor na época do Regime Militar, a expressão caminhando contra o vento vem reforçar a idéia central do texto: ser do contra, lutar contra as forças armadas pelo regime ditatorial, promover a união da população contra o governo imposto de forma indireta e arbitrária. Idéia corroborada pelo descumprimento das regras gramaticais da língua padrão, como no exemplo: Me enche de alegria... , em que a frase é iniciada pelo pronome oblíquo ME.
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